trapiche: um chamado para atra-versar
- Teia Acolhida
- 6 de mar.
- 3 min de leitura
escrita, infância e ética da escuta

A escrita ocupa um lugar mágico na minha experiência como alguém que tece seu fazer a partir da escuta. Desde criança me dedicava a inventar mundos através da brincadeira com as palavras. Os diários e as cartas tomavam lugar de um verdadeiro parque de diversões, onde podia me movimentar livremente e com isso criar realidades diversas. Me fascinava com a linguagem e experimentava a palavra como um verdadeiro portal lúdico. Lembro que uma das minhas brincadeiras preferidas era dar vida a seres e objetos inanimados, era como se eu buscasse através da escrita acessar outras formas de me relacionar com o real que me cercava. Ali, na época com nove anos, fazia isso através da criação de narrativas que nasciam de perguntas como: Como é a vida de uma cadeira de balanço? Se uma montanha pudesse falar o que ela diria? Como vivem as estrelas cadentes e que histórias poderiam nos contar? Era como se através desses questionamentos eu pudesse ampliar a existência, acessar outras formas de vida e suas perspectivas, era como se algo da minha experiência humana quisesse se misturar a essa outra através da brincadeira escrita.
Certa vez em uma viagem de família ao litoral sul conheci um solitário trapiche. Ele se destacava no longo e interminável horizonte oceânico. Era uma presença imponente, mas ao mesmo tempo frágil e melancólica. Nosso encontro me permitiu avançar sobre o mar, caminhar sobre aquela água imensa. Mas à medida que andava sobre suas tábuas de madeira desgastadas sentia surgir na barriga um frio diferente. Mais longe e mais fundo. De lá de sua ponta podia perder de vista a larga extensão de areia da praia. O trapiche solitário me permitia ter uma outra visão. Através dele a paisagem se mostrava invertida e de repente algo estranho acontecia: eu me sentia agradecida pelo nosso encontro, e, aos poucos, sentia nascer ali uma espécie de amizade. Eu comecei a visitar o trapiche e a nutrir por ele uma afeição secreta. Escutava seus anseios, seus sonhos e suas saudades. Registrava detalhes das incontáveis histórias salgadas que sua antiga vida guardava. Ouvia segredos assobiados pelo vento sobre o mar aberto que pulsava em seu parapeito. Com um pequeno caderno de espiral pautado, desses de capa mole, e uma caneta azul nas mãos, apreciava esses momentos em que nossas solidões faziam companhia uma para outra. Me sentia estranhamente em casa sobre as carcomidas madeiras do trapiche solitário, algo nessa zona suspensa e indeterminada, nesse limiar de passagem entre a terra firme e a imensidão do mar me parecia estranhamente familiar. Sobre sua estrutura precária, me sentia segura para ir além, não só no mar, mas também na capacidade de inventar.
Hoje percebo que foi assim, brincando de encantar a vida através das palavras e da imaginação, que inaugurei um modo muito particular de me relacionar com a potência da escuta. Nascia nesse tempo-território ontológico da infância, onde o silêncio do mundo ainda fala e a escrita aparece como brincadeira, uma ética capaz de escutar o invisível e o inanimado. Com o trapiche descobri que através da escrita eu poderia dar voz, nome e corpo pras multidões que viviam através de mim. Que ao imaginar, escutar e escrever podia brincar de ser outras, confluir com outros modos de ser, con-fiar outros mundos. Nesse jogo lúdico fui me maravilhando pelo gesto fantástico de escutar o mistério, o silêncio e a beleza que moram em todas as coisas quando a presença é profunda. Eu ainda não sabia, mas naquele momento o que era brincadeira um dia se tornaria criação de uma ética de vida.
Caroline Petersen
(Psicóloga do coletivo)




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